Ao longo do primeiro ciclo da Rede de Prosperidade Familiar, 66% das famílias acompanhadas por dois anos saíram da extrema pobreza. Ao todo, cerca de 6 mil pessoas deixaram a situação de vulnerabilidade, segundo o Índice de Pobreza Multidimensional, da Oxford Poverty & Human Development Initiative (OPHI) em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
O resultado mostra a importância de olhar para a pobreza para além da renda e de construir esforços intersetoriais e integrados para seu enfrentamento. Projetos sociais têm início, meio e fim. Mas o desenvolvimento de um território não pode depender indefinidamente da presença de um financiador ou de uma organização executora. Um dos principais desafios do investimento social privado é justamente garantir que os resultados construídos ao longo de um projeto continuem produzindo impacto mesmo após o encerramento do ciclo de aporte.
O Maranhão ocupa a penúltima posição entre os estados brasileiros com maior proporção de famílias vivendo abaixo da linha da pobreza. Estimativas apontam que cerca de 51,6% da população maranhense vive com rendimento inferior à linha da pobreza. Nesse cenário, a região do Itaqui-Bacanga, em São Luís, reúne aproximadamente 200 mil habitantes distribuídos em cerca de 70 bairros e concentra desafios históricos relacionados ao acesso a direitos, infraestrutura e oportunidades de desenvolvimento.
É justamente nesse território que a Rede de Prosperidade Familiar, iniciativa da Vale executada pelo CIEDS, atua desde 2023 para fortalecer organizações comunitárias e ampliar a capacidade local de enfrentar a pobreza de forma integrada.
O legado começa pelo fortalecimento de uma rede de organizações comunitárias
A metodologia da Rede de Prosperidade Familiar parte do princípio de que as organizações de base comunitária não devem ser vistas apenas como responsáveis por serviços pontuais ou entregas de atividades, mas como protagonistas do desenvolvimento dos territórios, responsáveis por ouvir a população e articular as soluções necessárias. E que individualmente, elas geram resultados, mas juntas são capazes de conduzir um impacto muito maior.
Ao longo do primeiro ciclo da iniciativa, entre 2023 e 2025, 41 organizações comunitárias deixaram de atuar isoladamente e fortaleceram sua capacidade de gestão, articulação e incidência social com apoio financeiro, formações, mentorias, assessorias técnicas e uma articulação em rede.
Mais de R$ 10,5 milhões foram repassados diretamente às organizações locais, fortalecendo sua sustentabilidade institucional e sua capacidade de articular respostas às demandas do território.
Foi, em rede, que 41 organizações sociais foram capazes de acompanhar diretamente 4 mil famílias, alcançar mais de 81 mil participantes em ações comunitárias e impactar indiretamente mais de 72 mil pessoas, levantando, por meio de um diagnóstico de pobreza multidimensional, as principais demandas das famílias e articulando, com a força do coletivo, o poder público para a construção de soluções.
Quando a rede se torna protagonista
Para Karla Almeida, presidente do Instituto de Mães e Pais da Vila Verde, organização participante da Rede de Prosperidade Familiar, a experiência representou uma mudança profunda na forma de compreender e conduzir seu trabalho.
"Participar da Rede foi um divisor de águas. Sempre trabalhei para melhorar a vida das pessoas da comunidade, mas não sabia nomear muitas coisas que fazíamos. A metodologia nos ajudou a alinhar teoria e prática, compreender o fortalecimento institucional e perceber que a transformação na nossa comunidade acontece quando investimos nas pessoas e na mão de obra local."
Segundo Karla, um dos principais legados da iniciativa foi a construção de uma cultura de colaboração entre lideranças comunitárias.
"Aprendemos que nenhuma organização transforma um território sozinha. Hoje entendemos a importância do trabalho em rede. Juntos conseguimos promover mais qualidade de vida para a população. Essa mentalidade nasceu dentro da Rede de Prosperidade Familiar e nos fortaleceu tanto que não queremos mais voltar ao modelo anterior."
Essa capacidade de cooperação se tornou especialmente visível quando as organizações passaram a desenvolver projetos conjuntos, construir soluções coletivas e dialogar de forma mais qualificada com parceiros públicos e privados, se tornando uma importante força de mobilização desses atores.
Novo ciclo da Rede de Prosperidade Familiar: Rede dobrará
Os aprendizados e resultados alcançados no primeiro ciclo motivaram a ampliação da iniciativa. O segundo ciclo da Rede de Prosperidade Familiar já está em andamento e contará novamente com foco no fortalecimento de organizações comunitárias, na construção de mecanismos permanentes de governança territorial e no enfrentamento multidimensional da pobreza.
A expectativa é ampliar ainda mais a capacidade de articulação entre organizações da sociedade civil, poder público, empresas e lideranças locais, fortalecendo soluções construídas a partir do próprio território.
Como resume Karla:
"Hoje eu sinto que tirei uma venda dos olhos. E agora quero ajudar outros líderes a fazerem o mesmo. Aprendemos que boa vontade sozinha não basta. Precisamos de organização, planejamento, qualificação e trabalho em rede. Nossa instituição tem um antes e um depois da Rede de Prosperidade Familiar."
Esse talvez seja o maior legado de uma estratégia de saída bem-sucedida: quando o impacto deixa de pertencer ao projeto e passa a pertencer ao território.
O impacto do trabalho em rede no enfrentamento à pobreza
Em um território onde mais da metade da população do estado convive com a pobreza e onde diferentes vulnerabilidades se sobrepõem, o fortalecimento das organizações comunitárias mostrou-se uma estratégia efetiva para ampliar o acesso a direitos e oportunidades. A atuação em rede permitiu mobilizar atores locais, fortalecer a articulação com políticas públicas e gerar resultados concretos para milhares de famílias.
Os resultados refletem a importância de uma abordagem multidimensional da pobreza e de estratégias que atuem de forma integrada sobre diferentes dimensões da vida das famílias:
• 3.267 participantes passaram a gerar renda
• 434 pessoas conquistaram emprego formal
• 196 mulheres iniciaram ou fortaleceram seus empreendimentos
• 2.700 beneficiários participaram de cursos de qualificação
• 2.787 pessoas foram inseridas em programas socioassistenciais
• Mais de 6 mil pessoas receberam apoio alimentar
• 968 famílias passaram a ter acesso à água potável
Os dados evidenciam que o fortalecimento institucional das organizações não é um objetivo paralelo ao enfrentamento da pobreza. Ele é parte da própria estratégia de transformação territorial.
Quando organizações comunitárias ampliam sua capacidade de gestão, articulação e atuação em rede, elas também ampliam sua capacidade de responder às diferentes dimensões da pobreza e conectar famílias a direitos, serviços, oportunidades e políticas públicas.
É esse efeito multiplicador que permite que o impacto ultrapasse os limites de um projeto e permaneça como capacidade instalada no território.