A crise climática já faz parte da vida de milhões de pessoas. E, nos próximos meses, novos eventos extremos podem ampliar esse cenário. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o El Niño está se intensificando e deve atingir seu pico no fim de 2026, com possibilidade de provocar alterações nos padrões de temperatura e precipitação e aumentar riscos de inundações, secas e calor intenso. A previsão é de que o fenômeno persista até fevereiro de 2027.
Mas esses impactos não atingem todas as pessoas da mesma forma. Populações em situação de pobreza e vulnerabilidade social estão mais expostas aos riscos climáticos e têm menos recursos para se proteger, se adaptar e se recuperar.
Por isso, compreender a crise climática também exige olhar para a pobreza em sua dimensão multidimensional, considerando o acesso a direitos, serviços, oportunidades, infraestrutura e condições para construir um futuro com mais autonomia e segurança.
A crise climática também é uma crise de desigualdade
O Índice Global de Pobreza Multidimensional 2025, elaborado pelo PNUD em parceria com a OPHI, mostra que, das 1,1 bilhão de pessoas em situação de pobreza multidimensional nos países analisados, 887 milhões vivem em regiões expostas a pelo menos um risco climático, como calor extremo, secas, inundações ou poluição do ar.
O problema não está apenas na intensidade dos eventos, mas também nas condições de quem precisa enfrentá-los. Moradias precárias, falta de saneamento, ausência de áreas verdes e dificuldade de acesso a serviços públicos aumentam a vulnerabilidade.
A crise também afeta a saúde, a alimentação e a renda. Segundo a OIT, cerca de 71% dos trabalhadores no mundo estão expostos ao calor excessivo, que pode provocar doenças, acidentes, perda de produtividade e mortes.
O que é racismo ambiental?
O conceito de racismo ambiental ajuda a evidenciar como determinados grupos são desproporcionalmente expostos à poluição, à degradação ambiental e aos riscos associados ao território.
No Brasil, essa discussão está relacionada à ocupação desigual das cidades e às diferenças históricas no acesso à moradia, infraestrutura, saneamento e serviços públicos. Território, raça e condição socioeconômica influenciam diretamente quem está mais exposto e quem possui mais condições de se proteger.
Essa desigualdade também aparece na contribuição para a crise. Dados da Oxfam mostram que, em 2019, o 1% mais rico da população mundial foi responsável por 16% das emissões globais de CO₂, enquanto os 50% mais pobres responderam por 7,7%.
Da emergência à construção de resiliência
Uma pesquisa da Nexus revelou que mais de 42 milhões de brasileiros já foram diretamente afetados por desastres ambientais ou conhecem alguém que passou por essa situação. O levantamento também mostrou que metade da população não sabe onde buscar informações sobre como agir diante de uma tragédia ou desastre natural.
As organizações comunitárias têm um papel importante nesse processo. Elas conhecem os territórios, identificam vulnerabilidades, mobilizam redes de apoio e contribuem para a construção de respostas mais adequadas às realidades locais, mas enfrentar a crise climática exige ir além da emergência.
É necessário integrar adaptação climática, proteção social, saúde, educação, segurança alimentar, infraestrutura, trabalho e renda. Também é fundamental reconhecer as comunidades como produtoras de conhecimento e participantes das decisões sobre seu futuro.
O papel do CIEDS
É nessa perspectiva que o trabalho do CIEDS se conecta à agenda climática: fortalecer pessoas, organizações e territórios para ampliar capacidades, acesso a direitos e oportunidades.
O projeto Missão Climática: Jovens em Ação!, promovido pela ECOMOVE International e realizado no Brasil em parceria com o CIEDS e a Redes da Maré, utilizou um escape game educativo para trabalhar com adolescentes temas como mudanças climáticas, justiça climática, desinformação, biomas brasileiros e soluções sustentáveis.
A proposta foi estruturada para ser aberta, gratuita e replicável em escolas, oferecendo materiais e orientações para que professores possam utilizar o jogo como ferramenta pedagógica. A experiência já foi testada com mais de 400 estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro e de Recife, e 200 jogos foram distribuídos gratuitamente para escolas da rede municipal.
Outra frente de atuação é o Comunidade Recicla, projeto de gestão socioambiental realizado pelo CIEDS em parceria com a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (ASSERJ) e a Secretaria Estadual do Ambiente e Sustentabilidade do Rio de Janeiro (SEAS), com atuação na Rocinha e no Vidigal. A iniciativa trabalha com reciclagem, sustentabilidade, geração de renda e economia circular a partir das especificidades de cada território.
Na Rocinha, o projeto atua com oficinas de economia circular, incluindo iniciativas como o Funk Verde, que utiliza instrumentos produzidos a partir de materiais reciclados, e a Ecomoda, voltada à produção de peças a partir de resíduos têxteis, além da articulação com a cooperativa local de catadores. No Vidigal, a iniciativa apoia a qualificação e estruturação de uma horta comunitária, fortalecendo a participação de agentes locais na sua manutenção e a distribuição dos alimentos a escolas e moradores da região.
A experiência evidencia como respostas aos desafios ambientais podem partir dos próprios territórios, articulando gestão de resíduos, educação ambiental, geração de renda, economia circular e fortalecimento das redes comunitárias.
Um novo pacto para enfrentar pobreza e crise climática
A crise climática não pode ser enfrentada separadamente da pobreza e das desigualdades. Romper o ciclo de perdas de renda, insegurança alimentar, adoecimento e dificuldade de recuperação exige políticas públicas integradas, investimento em capacidades locais e participação das comunidades na construção das soluções.
A crise climática é uma crise ambiental, mas também é uma crise de desenvolvimento. Se queremos construir mais prosperidade para todas as pessoas, a transição para um futuro sustentável precisa ser também uma transição justa. Afinal, embora a crise climática afete a todos, não são todos que têm os mesmos recursos para enfrentá-la.