Este artigo analisa como a memória social pode ser ativada como ferramenta metodológica e política na construção de políticas públicas mais democráticas. A partir da atuação do CIEDS (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável), examinam-se quatro experiências em territórios brasileiros marcados pela vulnerabilidade social: (i) o Programa Rede de Prosperidade Familiar, no Maranhão; (ii) o projeto Pessoas e Negócios Saudáveis, com comunidades quilombolas e pesqueiras; (iii) o PROMAJ, voltado à juventude periférica em Teresópolis (RJ); e (iv) o projeto Começar de Novo, com egressos do sistema prisional. Com base em uma abordagem qualitativa e descritiva, o estudo destaca a escuta ativa, a coautoria dos sujeitos e a memória coletiva como eixos estruturantes dessas práticas. Em diálogo com autores como Halbwachs, Fraser, Touraine, Latour e Castells, o texto argumenta que a memória, ao ser mobilizada como instrumento político, promove reconhecimento, pertencimento e redistribuição simbólica. A atuação das organizações da sociedade civil, nesse contexto, revela-se estratégica para tensionar o modelo tecnocrático de formulação de políticas e produzir alternativas éticas e participativas. Conclui-se que a memória, mais do que arquivo do passado, é fundamento da ação pública em contextos de desigualdade histórica.
1. INTRODUÇÃO
A construção de políticas públicas inclusivas no Brasil exige mais do que planejamento técnico e execução eficaz. Ela pressupõe o reconhecimento das desigualdades históricas que atravessam os territórios e a escuta ativa dos sujeitos sociais que neles vivem, dado que estes, em sua maioria foram historicamente silenciados e minorizados. Thomas Dye (1984) assinala que política pública é “tudo aquilo que os governos decidem fazer ou não fazer”. Essa definição, aparentemente simples, carrega uma dimensão crítica: a omissão também é uma forma de ação política. O não fazer, quando sistemático, revela uma arquitetura de exclusões e silenciamentos que sustentam a desigualdade estrutural brasileira.
O fazer de políticas públicas demanda, ainda, em nosso contexto, um olhar que ultrapasse a mera operacionalização, reconhecendo a pluralidade e a complexidade dos territórios e das trajetórias das populações vulnerabilizadas. Nesse sentido, importante salientar o conceito de território, conforme Milton Santos (1996, p. 45), referindo-se a “um espaço vivido, apropriado e atravessado por relações sociais que o fazem ser o que é”. Tal entendimento nos convida a pensar as políticas públicas e os projetos socioambientais voltados à redução das desigualdades como práticas que precisam dialogar com essas especificidades territoriais, em suas múltiplas dimensões culturais, econômicas e simbólicas.
Entender o território implica reconhecer a sobreposição de múltiplas escalas e a complexa interação entre sujeitos, instituições e objetos materiais, constituindo um espaço híbrido, resultado da confluência entre o global e o local. Bruno Latour (2004, p. 87) amplia essa perspectiva ao afirmar que as políticas públicas são (ou deveriam ser) “redes sociotécnicas onde humanos, instituições e objetos materiais atuam conjuntamente para construir realidades”. Assim, a memória social, inserida nessas redes, atua como um elemento vital para a ativação de vínculos e sentidos locais.
Neste cenário, a memória social — compreendida como o conjunto de narrativas, saberes e experiências que compõem a história coletiva de um grupo — torna-se um instrumento potente de denúncia, reparação e construção democrática. Como propôs Maurice Halbwachs (1990), a memória é sempre social, porque se organiza nas relações entre sujeitos e instituições. Ela não é mero arquivo do passado, mas campo de disputa: sobre quais histórias merecem ser lembradas e quais seguirão esquecidas. Quando mobilizada como prática metodológica e política pelas organizações da sociedade civil, a memória pode provocar rearranjos nos modos de fazer política pública, reposicionando sujeitos historicamente invisibilizados como protagonistas das soluções.
Este artigo se ancora na ideia de que políticas públicas que partem de pressupostos democráticos são aquelas que nascem da escuta, da participação e da construção coletiva. Em diálogo com Nancy Fraser (2006) e Iris Marion Young (2002), entendemos a democracia como uma arena de disputas por reconhecimento e redistribuição, que se torna mais justa na medida em que amplia os espaços de deliberação e representatividade. Importa frisar como assevera Daly (2006), a justiça restaurativa precisa ser lida como um campo político de disputa, que só se torna emancipador quando reconhece as hierarquias sociais e propõe práticas que deem voz aos sujeitos historicamente silenciados. Inspirados também em Alain Touraine (1997) e Manuel Castells (1999), compreendemos os sujeitos sociais como portadores de sentido e de identidade, capazes de reorganizar suas lutas a partir de suas memórias e redes.
As organizações da sociedade civil, como o CIEDS (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável), assumem significativo papel nesse processo, não apenas como implementadoras de projetos e políticas, mas como agentes formuladoras, que mobilizam saberes locais, mediações institucionais e inovação metodológica para responder a demandas complexas dos territórios. A escuta, a coautoria e a ativação da memória aparecem como estratégias estruturantes dessas práticas, promovendo formas alternativas — e mais democráticas — de elaboração da política pública.
Neste artigo, analisamos quatro experiências coordenadas pelo CIEDS: (i) o Programa Rede de Prosperidade Familiar, com mais de 4 mil famílias em extrema pobreza no território do Itaqui-Bacanga, em São Luís (MA), em parceria com a Vale; (ii) o projeto Pessoas e Negócios Saudáveis, com comunidades quilombolas e pesqueiras, em parceria com a Shell Brasil; (iii) o PROMAJ, em Teresópolis (RJ), voltado à juventude em situação de vulnerabilidade social, em parceria com a Prefeitura de Teresópolis; e (iv) a parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, no âmbito do projeto Começar de Novo, que promove a reinserção laboral de pessoas egressas do sistema prisional.
Com abordagem qualitativa e descritiva, baseada na análise documental, relatos institucionais e sistematizações internas, o artigo busca demonstrar como práticas centradas na memória e no reconhecimento ampliam a densidade democrática das políticas públicas. Em contextos marcados pela ausência ou pela presença punitiva do Estado, essas experiências apontam caminhos para a produção de políticas ancoradas em justiça, escuta e pertencimento.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Política pública, memória e democracia: aportes conceituais
A formulação e implementação de políticas públicas ocorrem em contextos sociais marcados por disputas simbólicas, desigualdades históricas e relações assimétricas de poder. A definição clássica de Thomas Dye (1984), ao afirmar que política pública é “tudo aquilo que os governos decidem fazer ou não fazer”, revela que a ausência de ação estatal também é uma escolha política — frequentemente pautada pela invisibilidade ou marginalização de determinados grupos sociais, conforme trouxemos na introdução desse artigo.
De modo que é necessário considerar os processos sociais, simbólicos e afetivos que moldam as agendas públicas, incluindo aquilo que Boaventura de Sousa Santos (2007) nomeia como “epistemologias do sul”: saberes e práticas produzidas por grupos historicamente subalternizados, muitas vezes ignorados pelos modelos hegemônicos de formulação de políticas.
A memória social, neste contexto, constitui um dispositivo teórico-metodológico que permite tensionar as ausências históricas e reposicionar sujeitos e territórios no centro da ação pública. Conforme Maurice Halbwachs (1990), a memória é social por definição: ela é construída coletivamente, a partir da relação entre indivíduos e grupos sociais. Para Elizabeth Jelin (2002), a memória é sempre um campo de disputa: lembrar é, necessariamente, esquecer algo. E disputar o que será lembrado é disputar os sentidos do presente e do futuro. Paul Ricoeur (2007), por sua vez, argumenta que a memória carrega uma função ética: ela vincula o presente ao dever de justiça frente ao que foi vivido.
Quando a memória é mobilizada em projetos sociais e em políticas públicas, ela não apenas resgata narrativas silenciadas, mas amplia as possibilidades de reconhecimento e pertencimento. Nesse processo, a democracia adquire uma densidade ética e política, pois passa a se pautar não só pela representação formal, mas pela deliberação, coautoria e redistribuição dos sentidos sociais, como defendem Fraser (2006) e Young (2002). Trata-se de compreender a democracia como uma prática relacional, sustentada na escuta ativa dos sujeitos e no compromisso com a transformação das estruturas de exclusão, indo muito além do ato de votar.
Além disso, como propõe Bruno Latour (2004), as políticas públicas não são formuladas em espaços neutros: elas são resultado de redes sociotécnicas, compostas por humanos, instituições e objetos materiais que atuam conjuntamente na produção da realidade. Nesse arranjo, a memória social pode ser compreendida como um operador simbólico que organiza sentidos, ativa vínculos e reconfigura a ação pública. Manuel Castells (1999) reforça essa leitura ao apontar que, em sociedades em rede, o reconhecimento de identidades coletivas se torna fundamental para a inclusão social e a política.
Essa articulação entre memória, escuta e democracia é central para o trabalho desenvolvido pelas organizações da sociedade civil que atuam em territórios vulnerabilizados.
2.2 O papel das OSCs como mediadoras do público
As organizações da sociedade civil (OSCs) têm ocupado, historicamente, um papel ambivalente no campo das políticas públicas: ora vistas como prestadoras de serviço em substituição ao Estado, ora como instâncias de participação e mobilização comunitária. No entanto, nas últimas décadas, em especial diante do esgotamento do modelo tecnocrático-burocrático de gestão pública, observa-se uma reconfiguração desse papel. As OSCs passam a ser reconhecidas também como atores formuladores, capazes de articular conhecimento técnico, vivência territorial e engajamento afetivo-político na produção de soluções públicas.
Na perspectiva desenvolvida nesta análise, as OSCs operam como mediadoras do público, um conceito que ultrapassa a função de “ponte” entre governo e população. Trata-se de uma mediação ativa, que envolve a escuta qualificada, a tradução de demandas, a criação de vínculos de confiança e a construção de espaços de deliberação democrática. A escuta, nesse contexto, não é apenas uma metodologia, mas um gesto político: ela reconhece o outro como sujeito e confere legitimidade à sua experiência.
Como demonstrado na minha tese de doutoramento Mariano (2019), esse agir das OSCs se ancora em três pilares fundamentais:
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o reconhecimento das trajetórias dos sujeitos como fundamento da ação pública;
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a invenção de práticas institucionais flexíveis, sensíveis às dinâmicas locais;
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a produção de sentidos políticos compartilhados, que articulem identidades, narrativas e expectativas.
Em territórios marcados pela desigualdade, pela violência e pela ausência (ou presença seletiva) do Estado, a atuação das OSCs permite deslocar o eixo da política pública do centro para a borda — sem abrir mão da institucionalidade, mas desafiando seus formatos cristalizados. Isso exige dos profissionais dessas organizações uma escuta radical, uma disposição à coautoria e uma capacidade de articular diferentes temporalidades, lógicas e linguagens. É nesse entre-lugar, que é técnico, afetivo e político, que as OSCs se tornam laboratórios vivos de inovação democrática.
O trabalho do CIEDS tem se materializado por esse pressuposto: metodologias baseadas na escuta ativa, na ativação da memória coletiva e na mobilização de redes locais como caminhos para construir políticas públicas mais justas, legítimas e eficazes. Nos casos analisados a seguir, evidencia-se como essa mediação se traduz em práticas que ampliam o acesso a direitos, promovem o pertencimento e tensionam o modo como o Estado se faz presente.
Cada um dos casos será apresentado com ênfase em sua concepção metodológica, nas estratégias de escuta e ativação da memória, nas tensões enfrentadas e nos efeitos produzidos.
2.3. Experiências do CIEDS: ativação da memória e reconfiguração das práticas públicas
A memória social deve ser compreendida como um processo dinâmico e coletivo de construção de sentido, que se atualiza e transforma no diálogo permanente com o presente, orientando futuros possíveis. Conforme Halbwachs (1990, p. 52), a memória coletiva é “um produto das interações sociais, que depende das redes sociais para existir e se preservar”. Essa perspectiva nos permite entender que a memória não é uma herança estática, mas um processo dinâmico e contestado.
Ao relacionar memória e território, Milton Santos (1996, p. 67) acrescenta que “o território é espaço socialmente construído, onde se cruzam práticas, memórias e disputas pelo sentido”. No contexto dos territórios vulnerabilizados, essa construção está marcada por conflitos e resistência, a memória social atua como dispositivo de resistência.
As experiências analisadas nesta seção ilustram como a atuação das OSCs pode produzir impactos significativos na formulação e execução de políticas públicas quando estruturada a partir da escuta ativa, da valorização das trajetórias locais e da mobilização da memória coletiva como tecnologia social. Cada uma das quatro iniciativas apresenta características específicas, mas todas têm em comum a centralidade da escuta como metodologia e da coautoria como estratégia de reconhecimento.
De modo que, esses quatro casos ilustram como a escuta ativa, a ativação da memória e a coautoria dos sujeitos podem reconfigurar os modos de pensar e fazer políticas públicas no Brasil. As experiências do CIEDS demonstram que, ao invés de serem vistas como espaços de ausência, os territórios vulnerabilizados podem ser reconhecidos como espaços de invenção política, resistência simbólica e experimentação democrática.
2.3.1. Rede de Prosperidade Familiar – Itaquibacanga (São Luís – MA)
O Programa Rede de Prosperidade Familiar foi desenvolvido em São Luís (MA), no território do Itaqui-Bacanga, em parceria com a empresa Vale, e tem como foco o acompanhamento de mais de 4 mil famílias em situação de extrema pobreza. A metodologia se estrutura em torno do cuidado integral e do fortalecimento dos vínculos comunitários. Mais do que atender famílias em situação de vulnerabilidade, o projeto busca ressignificar a relação dessas famílias com as políticas públicas e com sua própria trajetória de vida.
A escuta qualificada é a principal ferramenta utilizada: cada família é acompanhada por um articulador social que realiza um processo de escuta ampliada, identificação de demandas e construção de um plano de prosperidade individualizado. O projeto reconhece que os arranjos familiares não são homogêneos e que os indicadores de pobreza não captam a totalidade da exclusão social. Assim, a memória das famílias — suas histórias, suas perdas, suas estratégias de sobrevivência — torna-se critério e instrumento de enfrentamento à pobreza.
Além disso, o programa atua em sinergia com as redes locais de saúde, educação e assistência social, fortalecendo o território como espaço de proteção social e autonomia. O impacto da experiência não reside apenas nos números, mas na reconstrução de sentidos: ao serem ouvidas, nomeadas e respeitadas, as famílias deixam de ser objeto da política para se tornarem sujeitos da transformação.
A memória social é trabalhada como um dispositivo que permite compreender as estratégias históricas de sobrevivência, solidariedade e resistência presentes na comunidade. Ao produzir mapas sociais, registros e rodas de diálogo, as organizações constroem coletivamente um acervo que orienta as intervenções, integrando as dimensões simbólica, social e econômica do território.
2.3.2. Pessoas e Negócios Saudáveis – comunidades quilombolas e pesqueiras
O projeto Pessoas e Negócios Saudáveis, realizado em parceria com a Shell Brasil, atua com comunidades quilombolas e pesqueiras em territórios costeiros, propondo a valorização das economias tradicionais e a promoção da saúde comunitária. O ponto de partida do projeto é a ativação das memórias coletivas dessas comunidades, muitas vezes atravessadas por narrativas de expropriação, racismo ambiental e apagamento cultural.
O processo de diagnóstico é conduzido por meio de oficinas de escuta, rodas de memória e mapeamentos afetivos. Essas estratégias permitem que os próprios moradores reconstruam a história do território, identifiquem suas potencialidades e formulem, coletivamente, alternativas de sustentabilidade.
A lógica aqui não é intervir “sobre” o território, mas intervir “com” o território, a partir dele. Ao reconhecer as práticas produtivas locais — como a pesca artesanal, a agricultura de subsistência e o saber-fazer ancestral — o projeto resgata o protagonismo das comunidades e tensiona os modelos de desenvolvimento hegemônicos, frequentemente excludentes.
Essa apropriação da memória social como tecnologia política possibilitou que as comunidades reconstruíssem seu território vivido, resgatando a ancestralidade e suas formas próprias de autogestão. O projeto demonstra que as tecnologias sociais mais efetivas são aquelas que se inserem nas redes sociais e culturais existentes, respeitando e potencializando os agenciamentos locais.
2.3.3. PROMAJ – Teresópolis (RJ)
O PROMAJ (Programa Municipal de Atendimento ao Jovem), realizado em parceria com a Prefeitura Municipal de Teresópolis, tem como foco a promoção de trajetórias mais justas para jovens oriundos de famílias cadastradas no Cadastro Único. O programa articula ações de qualificação profissional, escuta psicossocial, mentoria comunitária e acompanhamento familiar, com ênfase na reconstrução do projeto de vida juvenil.
A estratégia metodológica incorpora a escuta como eixo central, criando espaços onde os jovens possam narrar suas experiências, projetar seus desejos e elaborar os impactos da exclusão social sobre suas identidades. Oficinas de expressão artística, rodas de conversa e mentorias com lideranças locais são usadas como dispositivos de elaboração simbólica.
A política pública aqui deixa de ser uma “entrega de serviço” e passa a operar como um campo de reconhecimento. A coautoria dos percursos formativos por parte dos jovens amplia sua agência e fortalece seus vínculos com o território. O PROMAJ atua, assim, como uma política de juventude com densidade democrática, que reconhece os jovens como produtores de sentido e não apenas como destinatários de ações públicas.
2.3.4. Projeto Começar de Novo – Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro
O projeto Começar de Novo, realizado em parceria com o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, promove a inserção/reinserção no mercado de trabalho de maiores de 18 anos, egressos do sistema penitenciário. A iniciativa articula atividade laborativa supervisionada, formação cidadã e mediação institucional, com foco na justiça restaurativa e na reconstrução de vínculos sociais.
A escuta das histórias de vida dos participantes é elemento estruturante da metodologia. Ao reconhecer os múltiplos fatores que atravessam a trajetória da população egressa — racismo, pobreza, violência institucional, abandono familiar — o projeto propõe intervenções que não apenas reparam danos, mas criam novas possibilidades de pertencimento.
Mais do que garantir acesso ao trabalho, o programa promove a revalorização da identidade, a ampliação de redes de apoio e o reconhecimento institucional desses sujeitos. A parceria com o Poder Judiciário, ao invés de se basear apenas na lógica punitiva, abre espaço para uma política pública que articula justiça, escuta e reinvenção de trajetórias.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As experiências analisadas neste artigo demonstram que a memória não é apenas um campo simbólico do passado, mas uma tecnologia social e política fundamental para a produção de políticas públicas democráticas. Quando incorporada às metodologias de escuta e mobilização, a memória adquire função estruturante: permite que os sujeitos historicamente silenciados não apenas sejam lembrados, mas reconhecidos como coautores do presente e articuladores de futuros possíveis.
A memória, nesse sentido, não é neutra. Como propõe Jelin (2002), ela é sempre campo de disputa — e, ao ser mobilizada nas práticas institucionais, torna-se também um território de reconstrução de vínculos, narrativas e pertencimentos. Ao ativar memórias coletivas nos territórios, as organizações da sociedade civil operam deslocamentos epistemológicos: tornam visível o que foi esquecido, politizam o que foi individualizado e restauram a dimensão comunitária do cuidado.
As quatro experiências coordenadas pelo CIEDS ilustram, cada qual à sua maneira, que a memória pode ser fundamento e método na reinvenção das políticas públicas. Da escuta sensível às famílias em extrema pobreza no Maranhão, ao reconhecimento das práticas tradicionais de comunidades quilombolas e pesqueiras; da reconstrução do projeto de vida da juventude periférica fluminense à reinserção laboral de egressos do sistema prisional, o que se observa é um mesmo fio condutor: a ativação de sentidos, histórias e vínculos como caminho para a produção de políticas mais humanas, eficazes e justas.
Essas iniciativas também colocam em evidência o papel das organizações da sociedade civil como mediadoras da ação pública, capazes de articular institucionalidade e sensibilidade territorial. Longe de atuar apenas como executoras de serviços, essas organizações formulam metodologias que desafiam o modelo tecnocrático, apostando na construção coletiva, na escuta ativa e na valorização das identidades locais.
Contudo, a sustentação dessas práticas exige o enfrentamento de tensões importantes: a lógica fragmentada das políticas públicas, os limites institucionais para a inovação social, a descontinuidade das parcerias e a persistência de visões reducionistas sobre os sujeitos em situação de vulnerabilidade.
Nesse cenário, a memória deve ser tratada não como ferramenta de gestão, mas como princípio político — um direito coletivo e uma chave crítica para reimaginar o Estado e suas formas de presença. Como destaca Mariano (2019), a radicalidade democrática só se realiza quando os sujeitos são escutados em sua inteireza, e suas trajetórias passam a compor o repertório institucional de elaboração da política.
Acreditamos, assim, que a memória, quando tratada como categoria operatória, pode guiar uma agenda pública comprometida com a justiça, a reparação e a redistribuição simbólica. Nesse sentido, podemos assinalar que experiências como as aqui descritas orientem diretrizes de políticas públicas baseadas em quatro princípios fundamentais: (i) a escuta ativa como etapa fundante da política pública; (ii) a memória como instrumento de democratização e justiça histórica; (iii) o fortalecimento das OSCs como espaços de formulação e inovação institucional; (iv) a valorização dos territórios como sujeitos políticos, e não apenas como espaços de intervenção.
Mais do que experiências replicáveis, trata-se de testemunhos empíricos da memória como ação coletiva e horizonte democrático. Em tempos de disputas sobre o passado, negar a memória é negar o direito à política — e reafirmá-la é, talvez, o primeiro passo para reconstruirmos o comum. Neste sentido, políticas públicas e projetos sociais que ativam a escuta, o pertencimento e a reparação simbólica se aproximam de uma perspectiva de justiça restaurativa, ao reposicionar sujeitos historicamente silenciados e invizibilizados como protagonistas de novas narrativas coletivas.
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