No Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 31 de março, é fundamental olhar para trajetórias que confirmam o potencial transformador da educação, da ciência e da inclusão produtiva no enfrentamento das desigualdades no Brasil.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância diante de um cenário desafiador. O Brasil segue sendo o país que mais mata pessoas trans no mundo há quase 18 anos consecutivos. No mercado de trabalho, apenas 25% das pessoas trans têm emprego formal, e sua renda média é 32% inferior à da população geral, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea, 2025).
Quando a ciência encontra o território
O Programa Jovens Cientistas Cariocas, uma iniciativa da Secretaria Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação do Rio de Janeiro em parceria com o CIEDS, é um exemplo de como a ciência pode ser colocada a serviço da cidade e da redução das desigualdades.
Mais do que um programa de pesquisa, o JCC atua como um laboratório de inovação com impacto econômico e social, apoiando jovens universitários no desenvolvimento de soluções práticas para desafios urbanos, sociais e ambientais, especialmente nos territórios do entorno das Naves do Conhecimento.
Uma trajetória que conecta ciência, clima e futuro
Entre essas histórias está a de Brayana Erick Da Silva Simplicio, jovem trans de Acari, na zona norte do Rio de Janeiro, que completa 19 anos neste Dia da Visibilidade Transgênero.
Filha de dois pais com deficiência, Brayana cresceu em um contexto de vulnerabilidade social, mas sempre encontrou na educação uma ferramenta de transformação. “Estudar é uma das melhores coisas possíveis, tem o potencial de mudar a vida de alguém”, afirma.
Seu interesse por ciência começou ainda no ensino médio, quando participou de projetos de física e matemática como bolsista. Foi nesse período que surgiu a ideia que daria origem ao Lumis, seu projeto apoiado pelo Jovens Cientistas Cariocas.
Inovação sustentável com impacto social
O Lumis é um totem solar construído com materiais reutilizados e recicláveis, capaz de carregar celulares e tablets a partir de energia limpa.
Inspirado em padrões da natureza, como o teorema de Fibonacci, o projeto organiza as placas solares de forma eficiente, ampliando sua captação de energia. A relevância desse tipo de solução se conecta a um movimento global: a energia solar fotovoltaica já demonstra benefícios ambientais expressivos.
Segundo a International Energy Agency, a expansão da energia solar pode contribuir para reduzir mais de 6 bilhões de toneladas de CO₂ até 2050. No Brasil, o setor solar já evitou cerca de 50 milhões de toneladas de CO₂ emitidas na atmosfera até meados de 2024.
Além da geração de energia limpa, o uso de materiais reciclados amplia ainda mais esse impacto. Estudos indicam que a reciclagem de componentes de painéis solares pode reduzir o impacto ambiental desses equipamentos em até 89%.
Mais do que uma solução tecnológica, o Lumis propõe um novo olhar sobre consumo energético e sustentabilidade. Pode ser implementado em escolas, clínicas da família e espaços públicos, contribuindo para reduzir o uso de fontes não renováveis e ampliar a conscientização ambiental.
A proposta também inclui a criação de espaços de convivência com materiais recicláveis, reforçando o papel da escola como ambiente de cuidado, troca e bem-estar.
O papel do apoio estruturado
Brayana conheceu o programa pelas redes sociais e decidiu se inscrever. Durante sua participação, contou com mentoria técnica e apoio financeiro, fundamentais para viabilizar o projeto. A bolsa permitiu custear deslocamentos para mentorias e adquirir materiais para o desenvolvimento do protótipo.
“Foi muito sobre orientação e apoio, tanto financeiro quanto teórico. O programa me ajudou a organizar minhas ideias e colocar em prática”, conta.
Ao final de 2025, Brayana apresentou o Lumis na Mostra Jovens Cientistas Cariocas, consolidando uma jornada que uniu conhecimento técnico, criatividade e propósito.
Educação, ciência e inclusão produtiva
Hoje, Brayana cursa enfermagem como bolsista integral e sonha em seguir na carreira acadêmica, com foco em pesquisa e docência.
Sua trajetória dialoga com um desafio estrutural: ampliar o acesso e a permanência de pessoas trans na educação e no mercado de trabalho.
Nos últimos anos, houve avanços importantes. Atualmente, 38 universidades brasileiras contam com políticas de cotas para pessoas trans, com reservas entre 1% e 2% das vagas, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA, 2025). Ainda assim, essas iniciativas não são suficientes para superar barreiras históricas de acesso, permanência e conclusão dos estudos.
Mesmo com conquistas como o direito ao nome social e o acesso à saúde pelo SUS, a realidade ainda é marcada por discriminação, exclusão e falta de oportunidades, o que limita o pleno desenvolvimento dessas trajetórias.
Visibilidade que gera transformação
Para Brayana, o Dia da Visibilidade Trans carrega um significado especial:
“É um dia de comemorar, mas também de honrar quem veio antes e não teve oportunidade. Muitas pessoas trans ajudaram a moldar o mundo e foram invisibilizadas. A gente precisa lembrar para que isso não aconteça de novo.”, defende.
A fala reforça que visibilidade não é apenas reconhecimento simbólico. É também sobre garantir acesso, direitos e oportunidades para que mais pessoas possam existir, estudar, trabalhar e contribuir com a sociedade em sua plenitude.
Histórias como a de Brayana mostram que enfrentar a pobreza exige olhar para as desigualdades de forma integrada. Educação, ciência, inclusão produtiva, acesso a direitos e fortalecimento de territórios não são agendas isoladas, mas dimensões que se conectam e se potencializam. É a partir dessa visão sistêmica que o CIEDS atua: criando, articulando e executando iniciativas que ampliam oportunidades e fortalecem trajetórias em todo o Brasil. Reduzir desigualdades não é um esforço pontual, mas sim um trabalho contínuo e coletivo para que mais pessoas possam acessar, permanecer e prosperar.