Marina Rotenberg Gerente Executiva de Desenvolvimento Institucional
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Violência de gênero no Brasil: a importância do aumento da renda e das redes de proteção

Artigo
9 março 2026
Violência de gênero no Brasil: a importância do aumento da renda e das redes de proteção

É Mês da Mulher no Brasil e o que ganhamos de presente é uma série de novas notícias sobre violências de gênero. Em 2025, o país bateu níveis recordes nesse ranking de horrores. Com uma alta de 4,7% em relação a 2024, aproximadamente 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio, o que significa, em média, quatro mulheres mortas por dia em razão da violência de gênero no nosso país.

O feminicídio é, no entanto, o ápice, o ponto sem retorno, de um ciclo de violências estruturais que começam muito antes - nas piadas machistas em mesas de bares, nas falas misóginas de figuras públicas, nas disparidades salariais para mesmas posições em postos de trabalho e em tantas outras formas cotidianas de desigualdades que se repetem, escalam e se transformam em agressões psicológicas, patrimoniais, morais e físicas. Os números de feminicídio são retratos de uma sociedade que violenta mulheres de diversas formas e de políticas públicas ainda insuficientes para enfrentar essa realidade.

Segundo dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, do Senado Federal, 58% das mulheres que sofreram violência em 2025 não procuraram uma delegacia. A subnotificação da violência, que é praticada em sua maioria por parceiros íntimos - 62% sendo executada por marido/companheiro, segundo este mesmo estudo - tem impactos diretos na invisibilização do problema. O silêncio, porém, não é escolha individual: é resultado do medo, da vergonha, da ausência de proteção efetiva e da relação imbricada sobre renda e dependência financeira entre vítima e agressor.

Os dados são ainda piores em faixas de renda mais baixas e em mulheres negras. Mulheres pretas e pardas são as principais vítimas de violência de gênero no Brasil. Elas têm 1,7 vezes mais chances de serem assassinadas do que mulheres não negras, representando mais de 66% dos homicídios femininos em 2022. Quando há o recorte de renda, os dados mostram que aquelas com renda familiar de até um salário mínimo são mais vulneráveis à violência doméstica e familiar.

Estudos indicam que variáveis relacionadas à renda e à inserção no mercado de trabalho influenciam a dinâmica da violência conjugal. Números do DataSenado mostram que 61% das mulheres afirmam que a dependência financeira impede a denúncia de agressões, 17,1% declaram que foram impedidas de trabalhar ou estudar, e 10% não têm acesso ao próprio dinheiro. Esses números revelam como o controle econômico opera como mecanismo de manutenção do ciclo da violência. 

O paradoxo da renda na violência de gênero

Dados do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada)* mostram que 52,2% das mulheres economicamente ativas declararam já ter sofrido violência doméstica, frente a 24,9% entre aquelas fora do mercado de trabalho, demonstrando que a autonomia econômica não elimina automaticamente o risco de ser violentada. Alguns achados do estudo: 

  • Violência em Mulheres Ativas: Contrário ao senso comum de que a independência financeira protegeria automaticamente a mulher, estudos do Ipea mostraram que o índice de violência doméstica é, muitas vezes, maior entre mulheres que trabalham fora (economicamente ativas).

  • Reação à Autonomia: A inserção no mercado de trabalho e a geração de renda própria por parte da mulher podem, em contextos de relacionamentos desiguais, provocar uma reação violenta do parceiro, que se sente ameaçado em sua posição de controle ou "provedor".

  • Dependência Econômica: A falta de autonomia financeira é um fator que mantém muitas mulheres em ciclos de violência, pois limita a capacidade de sair do domicílio e romper com o parceiro agressivo.

  • Diferença de Renda: Pesquisas utilizaram a diferença salarial entre o casal como indicador, sugerindo que disparidades significativas podem aumentar o risco de violência doméstica.

Autonomia econômica e redes de apoio locais: caminhos complementares para romper com os ciclos de violência

A violência de gênero é estrutural e persistente e, por isso, exige respostas igualmente articuladas que combinem educação, geração de renda, espaços de convivência, escuta qualificada, orientação jurídica e psicológica.

Experiências do CIEDS em diferentes territórios unem inclusão produtiva e articulações locais, entendendo que essa combinação é central para a consolidação da autonomia. Ao mesmo tempo em que permite que mulheres gerem renda, essa abordagem as conecta entre si e com serviços de assistência social, saúde, educação e justiça, fortalecendo redes de apoio e criando condições concretas para que transformem suas realidades por meio da inclusão produtiva e da garantia de direitos.

Marta* foi beneficiária do Fortalecer Proteção Social, projeto executado junto ao UNICEF cujo objetivo foi fortalecer sistemas de proteção social responsivos a emergências em municípios com famílias em situação de vulnerabilidade. Além de promover a articulação entre setores e apoiar famílias a acessarem bens e serviços em contextos emergenciais, o projeto previa a transferência de renda emergencial por meio de cartões alimentação. A dependência financeira era o principal motivo que fazia com que Marta permanecesse presa a um contexto doméstico de violência. Com o cartão de alimentação em mãos, ela conseguiu garantir o cuidado dos filhos e sair de casa, dando o primeiro passo para romper com o ciclo de violência.

Carla*, por sua vez, foi beneficiária do projeto Tecendo o Amanhã, realizado em parceria com o Instituto Malwee, que criou um espaço de formação empreendedora para inclusão social e produtiva na área têxtil. Após uma separação, Carla encontrou a costura como forma de terapia ocupacional e, ao longo do projeto, a prática se transformou em uma fonte de renda e estabilidade.

Mulheres beneficiárias do Energia Feminina, iniciativa realizada em parceria com o Instituto Equatorial no Piauí e no Pará em 2024 - e que se expande para mais cinco estados em 2025 - dobraram o faturamento de seus negócios após a participação no projeto. Entre elas, 75% firmaram parcerias comerciais com outras empreendedoras da iniciativa e 100% afirmam que a experiência contribuiu para fortalecer sua autoestima e confiança, tanto como mulheres quanto como líderes de seus próprios negócios.

Dados do Empoderar e Empreender, iniciativa do CIEDS junto à Transnorte Energia, também revelam impactos expressivos: aumento de 55% na renda pessoal das participantes e melhora na qualidade de vida para 98% das mulheres atendidas. Neste projeto, foram, ao todo, cerca de 300 mulheres de 17 comunidades do Amazonas e de Roraima.

Essas são algumas entre dezenas de experiências realizadas pelo CIEDS em parceria com o poder público e a iniciativa privada que demonstram a efetividade da combinação entre geração de renda e fortalecimento de redes de apoio. São milhares de mulheres que tiveram suas vidas transformadas. Mas, os dados não nos deixam parar. 

É preciso um compromisso coletivo e uma ação coordenada entre poder público, iniciativa privada e sociedade civil organizada para que projetos deixem de ser iniciativas pontuais e se consolidem como programas de médio e longo prazo, com investimentos consistentes, acompanhamento qualificado e aprimoramento contínuo. Só assim poderemos tornar março, de fato, um mês para celebrar a vida plena de todas as mulheres.

 

* "Participação no Mercado de Trabalho e Violência Doméstica contra as Mulheres no Brasil", este estudo